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Os filhos precisam de

Os filhos precisam de "Nãos"?

[...] a criança é hedonista por natureza, isto é, ela busca espontaneamente aquilo que lhe dá prazer, satisfaz seus desejos, curiosidade, necessidades [...] dificilmente ela pensará por si só no outro, porque ela não tem essa capacidade (empatia)

Todos os seres vivos buscam, normal e instintivamente, o que dá prazer e satisfaz, e nisso se baseia a autoestimulação precoce e continuada. Rubem Alves, em toda sua obra, nos dá a entender que o homem é fruto do desejo para o prazer. Anormal é o hedonismo, a necessidade doentia de possuir o que os outros têm só porque eles têm, mesmo sem necessidade ou sem questionar se aquilo lhe será benéfico ou não. Os autores educacionais o combatem, mas para isso é preciso dizer “não”. Eles evitam esta palavra em relação aos filhos, enquanto se comportam de modo contraditório, porque o falso “sim” é contrário às suas próprias leis enquanto, em situações que envolvem terceiros, aplicam o “não” verdadeiro, até mais que o necessário, porque “o momento exige” ou porque “os outros o fazem” (atitude hedonista). Esta atitude demonstra a intenção de bem educar só fora do lar. Esta contradição gera falta de confiança dos filhos nos pais e dúvidas sobre como e quando se comportar de maneira correta. Não dizer “não” apenas no lar tranquiliza a consciência dos educadores, porque compensa suas ausências ou evita aquele “não” com o qual eles mesmos foram educados e o qual condenam. Se a educação que receberam não os satisfez, não teve os resultados que desejariam que tivesse tido, toda a culpa é, de modo equivocado, depositada no “não” que seus pais lhes impuseram, e o “não” passa a ser o vilão da história, tanto que eles quase nunca o dizem a seus filhos.

Os pais atuais abolem as negativas, permitem tudo, calcados na dra. Montessori: filhos precisam de liberdade total para encontrar os próprios caminhos e chegar ao êxito educacional; a “educação livre” conduziria os filhos à felicidade plena sem traumas. Mas verificou-se que, assim como a rígida educação antiga não o conseguiu, filhos totalmente “livres” tampouco se tornaram a maravilha esperada. Ao contrário, da orientação montessoriana plena resultou uma juventude “perdida em pensamentos e ações”, sem rumos ou objetivos definidos, insegura, pouco autorrealizada, exatamente o que muitos pais de hoje são, martirizados por dúvidas, como a própria aplicação do “não”, cujo excesso é tão prejudicial quanto sua ausência. Então, como utilizar corretamente o “não”?

O “não” significa proibição à tentativa de superar limites, e o “sim”, permissão. A autoestimulação precoce e continuada dá liberdade “total” para a criança, oferece “um sim à vida” do educando, mas dentro de leis (ritmo, disciplina e limites) ambientais. Os “nãos” imitam a natureza, que nos permite agir conforme o nosso livre-arbítrio; nos dá o “sim” instintivo para autoconquistas, mas sempre em conformidade com suas leis. Na educação, assim como na natureza, o “não” precisa ser imposto para a criança. Depois dos dois meses de idade, no chão, ela consegue autoconquistar tudo, respeitando e superando obstáculos e limites que lhe são aplicados como um “não” automático da natureza; porém, ao se locomover, os limites precisam ser impostos pelo “não” insistente e persistente do educador, porque não são mais seres automáticos.

O ideal é não restringir tudo (uma linha) nem dar liberdade total (um campo aberto) como caminho para o educando seguir, mas delimitar uma “avenida”, com espaço suficiente para ele optar por condutas, direções e sentidos, e evoluir, avançando e retrocedendo, errando, corrigindo e acertando com liberdade, dentro do ritmo, da disciplina e dos limites das leis ambientais: são os “sins” e os “nãos” da avenida. Isso imita a natureza e, com ela, dá oportunidades para, com esforços e iniciativas próprias, chegar às autoconquistas e evolução máxima, com felicidade autêntica, que começam em sonhos, fantasias, desejos e necessidades. Só assim o educando consegue exercer sua cidadania e promover a máxima expressão da sua genética nos diversos ambientes.

Para superar limites e obstáculos, o educando, como todos os animais, precisa se “opor a eles e desafiá-los”. É uma postura normal para superá-los e autoconquistá-los, que requer competências só autoadquiridas com treino por tentativas sucessivas e progressivas dentro das leis. O recém-nascido, a partir da amamentação, e depois, no chão, supera os limites do mamar pela fome e sede, do pegar e manipular, do deslocar-se em busca de algo, do encarar olhares para autoconquistar pessoas, vencendo obstáculos cada vez mais evoluídos, sentindo que, quanto mais difíceis forem, quantos mais “nãos” ele tiver que enfrentar, maior e mais autênticas serão a autoestima e felicidade autoconquistadas

Os limites e obstáculos são naturais e inevitáveis na vida, mas passíveis de superação por competências autoadquiridas pelo treino contínuo. Por isso, tentar desobedecer às leis naturais ou estabelecidas pelos pais é um impulso atraente pela maior autoestima que a autoconquista final traz, devido à maior dificuldade em se autorrealizar. Apesar dessas tentativas, pais e cuidadores precisam manter as leis para que sejam obedecidas, e é quando o “não” entra para limitar a liberdade de acordo com elas. Esta palavra precisa ser pronunciada nítida e enfaticamente, com energia, acompanhada de fisionomia reprovadora, e mantida até a criança desistir da oposição e do desafio às leis e aderir a elas. Em geral, são necessários três ensinamentos para incorporar cada aprendizado, porque a criança faz três tentativas para superar o limite imposto pelo “não”. É importante ressaltar que, mesmo frustrada pelo “não” do momento, com a sucessão dos eventos a criança adquire autoestima e felicidade, porque aprende que:

• as dificuldades para autoconquistar aumentam o valor e a volúpia por uma autoconquista;

• em geral, depois de três tentativas frustradas, ela desiste; depois de três experiências diferentes, compostas por três tentativas seguidas (nove estresses), aprende a aderir às leis, tolerar frustrações, administrar estresses, evitar alterações de humor e distúrbios comportamentais, para ser bem-aceita pelo modelo ambiental;

• todas as tentativas de superação de limites, bem, ou malsucedidas, são treino para autoconquistas mais evoluídas;

• vale a pena sempre tentar tolerar frustrações com paciência, porque, em algum momento, conseguirá a felicidade autêntica ou por superar o limite ou por aprender que não adianta mais tentar fazê-lo. Feliz, sua confiança nos pais e cuidadores aumentam, assim como sua autoconfiança e aderência às leis ambientais – ela passa a acatar todos os “nãos” em primeira mão.

O mais difícil para os pais e educadores é transmitir o “não”, porque, quando simplesmente enunciado, pode não ser compreendido pela criança. É que, até os dois anos de idade (fase pré-verbal), as palavras só são apreendidas quando acompanhadas dos gestos e mímicas correspondentes só depois dessa idade a criança compreende a verbalização isolada. Rubens Alves afirma: “[...] a arma do educador são as palavras [...] quando a criança olha para o todo amorfo e inominável ao seu redor, a desordem gira em torno dela até que a palavra lhe é dirigida dando nomes, impondo ordem, fazendo nascer o mundo [...]”.

Em geral, os pais imaginam que os filhos compreendam as palavras e “discursos orientadores”, e se “esquecem” de associar gestos e mímicas. Dizer o “não” sorrindo, de maneira delicada e gentil, explicando o porquê do “não”, sugerindo condutas, indica permissão, o “sim” que a incentiva a prosseguir.

Para se comunicar com filhos que já verbalizam, as palavras usadas nas mensagens dos educadores devem ser as mesmas que eles já incorporaram ao seu vocabulário (compreendem o significado) e com o mesmo tom que utilizam, mas sempre acompanhadas dos gestos e mímicas relacionados.

Até os dois anos e meio de idade, quando o limite é mantido com o “não”, a oposição e os desafios podem ser considerados findos quando a criança chora; o choro significa que ela não encontra alternativas para continuar tentando “burlar” a lei, e, assim, busca ajuda para sua frustração e refúgio. Apesar de o choro causar compaixão nos circunstantes, é preciso não ceder à tentação “dando refúgio ou consolando” com gestos e palavras delicadas; o choro precisa ser tolerado pelos educadores até que cesse, sem nenhuma atenção. Assim, o educando aprende a aceitar leis ao primeiro “não” e que não adianta chorar. A comunicação verbal é tanto melhor quanto melhores tiverem sido os reforços estimulativos para o amadurecimento das “janelas” e mapas neurais anteriores a ela.

Crianças até os dois anos e meio são “imaturas”, como era o povo hebreu que, depois de receber as tábuas da lei por meio de Moisés, foi “educado” pela política do olho por olho para impor e manter leis. Depois de a criança já evoluída, com raciocínio lógico, os ensinamentos podem ser reacionais, explicados verbalmente, como Jesus expôs Sua doutrina com bondade, caridade, e perdão a um povo que O compreendia. O “não” precisa ser mantido ou instituído assim que a criança nasce, numa continuidade do “não” automático intrauterino; a criança autoestimulada recebe os primeiros “nãos” quando a mãe só a satisfaz se houver uma necessidade verdadeira.

Ao se frustrar por não conseguir superar limites, a criança pode não se conformar e adotar agressão e “força” para conseguir; aí deve ser punida. Punição pode causar estranheza a certos pais, pelo fato de a considerarem também agressão; eles têm duas dificuldades principais para lidar com ela. A primeira, é definir a atitude do filho como uma agressão, que ultrapassa o tolerável, a oposição e o desafio normal. Em geral, tendem a tolerar ao máximo as atitudes agressivas dos filhos, a considerá-las como não sendo agressivas para que eles mesmos não sejam considerados agressivos por seus filhos, deixando as correções para depois. Aconselho-os a ter “tolerância zero”, a considerar agressiva qualquer conduta minimamente intolerável, e a punir de imediato, para que o comportamento não se agrave e o sofrimento de todos possa ser mínimo e rápido.

A outra dificuldade é saber como e quando punir. A punição deve causar a perda mais definitiva e irrevogável possível de algo que a criança possui e valoriza muito, de preferência que o tenha autoconquistado; a perda “definitiva” faz a criança sentir “luto doído”. Até os dois anos de idade, ela valoriza a proximidade, o apoio, a amizade e a aceitação dos pais e educadores, e punição é estes “mostrarem” a fisionomia séria e severa, dar-lhe as costas com descaso e um “gelo” por duas horas, apesar de a criança os perseguir com tentativas de retorno. Em idades superiores, esse “chega pra lá” não funciona mais; as perdas precisam ser materiais: lanche, guloseima, objetos, brinquedos a serem descartados ou doados para uma criança pobre (ética, civilidade, caridade e amor); sua recuperação só poderá acontecer depois de seis meses de “luto”, se a criança não incorrer nas mesmas agressões. Sobre quando punir, o ideal é que seja de imediato, mas, se não for possível, marcar “dia, hora e circunstância” para o cumprimento da punição – o importante é nunca deixar de cumpri-la.

Não se pode esquecer que o choro raivoso e revoltado após a criança ser punida também, é uma agressão, enquanto um choro pacato atesta renúncia e adesão às leis, ou uma maneira de tentar escapar da punição. Diante dessa situação, os pais não devem se deixar levar por “pena do coitadinho”, porque o choro, então, se tornará mais intenso, agressivo, e necessitará nova punição. É importantíssimo os pais preverem as condutas dos filhos e suas consequências, autoestimulando-as, se positivas, e ensinando as leis com antecedência; isso lhes permite cobrar o comportamento desejado e punir o não desejado.

Punições indevidas também são agressões, só que, nesse caso, dos educadores, que despertam a sensação da injustiça e o instinto de agredir no educando, como uma contra punição, além de ensinarem a agredir, podendo criar um círculo vicioso de agressões mútuas. A punição deve ser vista como um “castigo que educa”. comportamentos do educando que ultrapassem os limites, o ritmo e a disciplina das leis ambientais, mesmo que insignificantes, devem ser considerados agressivos e punidos adequadamente, com consultas próprias em cada ambiente e adaptadas a cada educador e idade da criança.

O hedonismo impera, hoje, com válido e indiscutível. No dicionário, hedonista significa “partidário do hedonismo” e hedonismo, “doutrina moral que considera o prazer a finalidade da vida em que se procura obter o máximo com o mínimo de esforço”. Concordo com esta definição e com o fato de o ser humano procurar obter o máximo; porém, pela autoestimulação precoce e continuada, este prazer precisa ser conquistado com os próprios esforços – ou seja, autoconquistado – e, na maior parte das vezes, os esforços são máximos. No dicionário, prazer significa “satisfação, agrado, deleite, delícia”; ele traz felicidade, mas a autêntica só vem quando conquistada com esforços próprios, não pela “lei de Gerson”, levando vantagem e tendo prazer a qualquer custo e sem esforços próprios. Prazer e felicidade autênticos nunca vêm sem autovalorização pessoal, nem com o simples material, nem consumindo produtos bonitos e caros, ou ostentando um “corpo sarado”, coisas dão prazer e felicidade superficiais e fugazes. Para se chegar ao prazer e à felicidade autêntica é preciso “sofrer” esforço, empenho, paciência e persistência. É como diz William Blake: “O prazer engravida. O sofrimento faz parir” (Alves e Dimenstein, 2003, p.35).

Muitos pais me perguntam se essa educação com leis e punições não traumatiza a criança. Respondo que traumatiza tanto quanto a natureza com suas leis rígidas; terremotos, tormentas, tsunamis, sem “aviso-prévio” causam traumas incomensuráveis, restando-nos apenas a alternativa de suportar, aprender a enfrentar e a tomar medidas que diminuam o sofrimento. A natureza educa com rigidez, e os seres vivos precisam aceitar; a autoestimulação precoce e continuada adapta o educando às leis da natureza, ensinando as leis de cada ambiente. A gestação e o parto são “eventos naturais” que causam os sofrimentos físico e emocional mais intensos de toda a vida; o nascimento é uma frustração para o recém-nascido, uma rejeição materna, “expulsão” depois de ele ter “investido” na vida intrauterina. As neurociências afirmam que, no útero, o feto sofre pelo “aprisionamento e submissão às leis naturais” sem nenhuma ajuda (mimo), o que dá apoio à autoestimulação precoce e continuada; assim, o bebê nasce feliz, cheio de prazer pela autoconquista da vida. Para educar filhos com felicidade plena e autêntica, competência e independência é preciso seguir o exemplo da natureza: instituir leis com ritmo, disciplina, limites e punições adequadas.

Santo Agostinho dizia que tudo no mundo se divide em duas feiras. A primeira feira é a feira de Utilidades. Utilidades são saberes e competências que aprendemos não por causa delas, mas por causa de outras coisas [...] Mas só aprendemos o que nos conduz ao prazer e à alegria. O prazer e a alegria são as grandes forças que nos levam a aprender. A segunda feira é a Feira das Fruições. Fruir é gozar, ter prazer em. Os saberes da primeira feira são ferramentas, instrumentos. Meios para chegarmos ao lugar da beleza, da alegria e do prazer. Assim, a educação se constitui de duas partes: a aprendizagem das utilidades e a aprendizagem das fruições. Os saberes da segunda feira nos dão “razões” para viver (ALVES e DIMENSTEIN, 2003, p.114).

O egoísmo é combatido em favor do bem, da moral e da ética. A criança é vista como egoísta porque só pensa em suas próprias autoconquistas, e não nas do “outro”. Mas esse egoísmo é normal até os dois anos e meio de idade, porque ela precisa chegar à felicidade autêntica demonstrando capacitações para ser bem recebida; e não “divide” com o “outro”, porque “este” também é um objeto a ser por ela autoconquistado. Depois de chegar ao raciocínio lógico, a criança já reconhece e aceita o “outro”, e se comporta de acordo com os instintos naturais de sobrevivência, os conhecimentos morais e éticos, todos aprendidos nos ambientes que frequenta; o raciocínio lógico com os valores incorporados fazem--na conscientizar-se da influência obrigatória do “outro”, a dividir, e o egoísmo desaparece.

Conclusão: a educação global da criança se inicia no útero pela natureza com suas leis, deve ter continuidade pela atuação dos pais e educadores a partir do seu nascimento e não há motivos para se adiar os procedimentos autoestimulativos adequados para uma boa educação por toda sua vida. Tania Zagury concorda (2003, p. 67): “Quanto mais tarde começamos, maiores são as dificuldades. O dito popular ‘é de pequenino que se torce o pepino’ é bem verdadeiro para os pais”.

KLAJNER, HENRIQUE. A autoestimulação e seus reflexos na educação. São Paulo: Marco Zero, 2011.

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