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Crianças obedientes e autônomas

Crianças obedientes e autônomas

“Eu acredito que educamos muito bem a Melina, é uma menina obediente, sempre que solicitamos alguma coisa ela faz”.

Martha questiona o modo pelo que ela e Luís educaram a sua filha. Ela sente que a obediência é um valor central, e até certo ponto tem razão.

Martha pode cuidar dela, transmitir-lhe sua experiência. Melina a escuta e, além do que pensa e sente, obedece a tudo. Podemos concordar com Martha e Luís acerca do valor de uma menina obediente, agora devemos nos perguntar sobre o “processo de sua obediência”. Vamos pensar um pouco a respeito. Está certo que Melina obedeça, aos 3 ou 4 anos, à sua mãe, quando lhe diz para que preste atenção ao atravessar a rua. Seria bom que, aos 5, esse aprendizado estivesse incorporado por ela e não necessitasse mais das indicações de sua mãe em cada situação. Por isso falamos do “processo de sua obediência”; o desafio que enfrentamos na educação das crianças é que as normas passem de externas a internas, isto é, que as crianças as incorporem e operem-nas espontaneamente em seus modos de pensar e atuar no mundo.

Caso contrário, iremos nos deparar com crianças medrosas que se paralisam ante situações novas ou dificuldades não previstas, crianças que têm problemas para atuar com autonomia em suas vidas cotidianas.

Agora, como fazer para que as crianças incorporem as normas a seus modos de pensar e atuar no mundo e não sigam dependendo da orientação / indicação permanente de seus pais?

A princípio, mudando a maneira de transmitir as normas. Devemos passar da simples indicação, para aquela que vem acompanhada de uma explicação.

Voltando ao caso do semáforo, não só indicaremos que preste atenção ao atravessar, como também lhe explicaremos os riscos da rua, os perigos da distração quando se caminha, a necessária atenção que devemos ter nessas situações.

Além disso, seria bom ir explicando-lhe a atitude frente aos riscos da rua em geral.

Logo, temos de aceitar que, à medida que Melina cresça e amadureça, incorpore as normas que lhe foram transmitidas, essas serão uma referência, porém ela terá margem para avaliar de maneira autônoma o seu comportamento. Se o proposto é que cumpra estritamente o que lhe foi solicitado ao longo da vida, estaremos nos equivocando.

Ela irá enfrentar permanentemente novas situações, e em cada caso deverá ser capaz de avaliar de forma autônoma o que lhe convém fazer.

Estamos formando um ser humano livre e autônomo, capaz de adaptar-se a novos cenários e tempos. Porque o desafio da vida será enfrentar novas situações e contextos. E o grande desafio da educação que oferecemos é contar com parâmetros claros e liberdade para adaptá-los a essas situações.

Sem dúvida, ser pais é esboçar normas e “dar ordens” às crianças. Educá-las é transmitir-lhes experiências, padrões e regras. Porém também é aceitar que uma vez que se apropriem destes, transformem, adaptem e pensem em novos cenários e situações. Se tivermos sucesso na educação, esses parâmetros serão verdadeiras ferramentas de grande utilidade.

Educar crianças livres não implica “liberá-las” de normas e parâmetros, muito pelo contrário, trata-se de transmitir-lhes marcos de conduta e referências, que permitam construir suas próprias experiências, utilizando essas aprendizagens. As crianças “anômicas” (desorganizadas) têm grandes dificuldades para desenvolver-se no mundo adulto, porque a sociedade sanciona com rigor os que não são capazes de incorporar as normas.

Melina atravessará a rua com cuidado, escolherá seus amigos e namorados, irá atuar no mundo do trabalho e construirá uma família ao longo de sua vida. Martha e Luís estarão todo o tempo presentes, tanto pessoalmente, como envolvidos em seus modos de pensar e ver o mundo.

Não irão passar a vida fazendo o que lhe disseram, porém reconhecerão em suas decisões aquelas normas que lhe ensinaram, e ficarão admirados pelo modo como ela as tem recriado, de como tem incorporado as normas já definidas, e terão dado uma grande colaboração à sua felicidade.

Revista Educação Infantil. n. 50, agosto, 2010.

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